7 de setembro: Independência??? ou Morte??


Territorialidades: diálogo, reflexão e ação

Dia 7 de setembro de 2021! Mais uma vez o país vai celebrar o suposto grito de D. Pedro I às margens do rio Ipiranga, declarando o fim da relação colonial do Brasil com Portugal. Acontecimento dos livros de história, dos desfiles militares comemorativos do regime militar que alimentam uma visão de um Brasil como nação soberana.

Entretanto, nunca na história do país estivemos tão carentes de liberdade, autonomia e independência. Nunca vivemos tão à sombra da morte, da desesperança e da condição de país dependente, submisso e subalterno aos interesses do mercado e à ambição antidemocrática de manutenção de poder.

No dia da Independência somos ameaçados pela crise hídrica agravada pela ausência de uma política ambiental preventiva e responsável para conter a destruição da natureza, o desperdício ou a contaminação das águas que, a cada dia mais, vai perdendo uma ultrapassada perspectiva de recurso inesgotável, dramaticamente afetado pelo aquecimento global, o desmatamento e ausência de políticas públicas que garantam nossa soberania.

Juntamente com lucros bancários astronômicos, a população mais humilde vai ficando cada mais pobre, com menos emprego, sem moradia, alimento e condições mínimas de saúde. São vacinas que não chegam, enquanto a variante delta se espalha e o número de óbitos da Covid-19 cresce, ultrapassando 2020 e seguindo forte em 2021. Sempre com uma população mal informada, desorientada e desassistida por uma gestão da pandemia envolvida em escândalos assombrosos de corrupção.

Apesar dessa dramática situação, observamos as praias lotadas nesse feriado. São cenas que mais parecem um suicídio coletivo, um desespero em massa, fruto de quase dois anos de pandemia e três anos de expectativa de uma melhora da economia, alguma perspectiva de novos postos de trabalho ou a volta da vida sem a ameaça de morte pelo coronavírus, pela fome ou pela violência de uma sociedade cada vez mais desigual.

Em Brasília, palco de desfiles patéticos de tanques militares nos últimos tempos, vemos os mais legítimos donos de território brasileiro tendo que gritar não, ao chamado marco temporal que, se aprovado, coloca em risco a preservação de muitos povos indígenas, de seus costumes e modo de vida, além do fim da preservação das áreas que ocupam pelo avanço do agronegócio subserviente aos interesses internacionais, que exploram os produtos baratos que nossa economia dependente produz em abundância.

Nesse cenário sombrio nos restam as imagens dos atletas paraolímpicos que, como exemplo de garra, determinação, superação, alegria, resiliência e resistência, mostraram a mais verdadeira realidade brasileira de uma população que mesmo desamparada pelo poder público, se sobrepõe à adversidade para mostrar, simbolicamente, que vamos sobreviver, vamos vencer e vamos recuperar o orgulho de sermos brasileiros, apesar da desqualificação que sofremos como nação no momento atual.

Sendo assim, celebrar a independência está muito longe do padrão imposto pelas tristes lembranças do período militar, com desfiles de soldados e todo o aparato bélico que em nada reflete o poder de uma nação, sua autonomia e muito menos a liberdade. Independência representa um livre pensar, valorização da diversidade, multiplicidade de conhecimento, de cultura, de comportamentos.

A verdadeira independência está alicerçada em dignidade, em respeito, em cooperação, jamais na tríade exploração-acumulação-servidão imposta pelo sistema capitalista. Menos ainda por um patriarcado opressor que domina mentes e corpos, impõe o medo, a mentira e o negacionismo para ocultar a realidade de uma sociedade injusta e desigual, pautada na exclusão de pobres, negros, mulheres e tantos outros grupos sociais marginalizados por uma cultura de privilégios para poucos.

Nesse 7 de setembro de 2021, o povo brasileiro consciente e responsável não estará nas ruas, não vai vestir roupa verde-amarela, não vai bater continência ou valorizar qualquer exibição militar. Nesse dia cívico, o povo brasileiro que continua acreditando na vida e não na morte, na liberdade e não na dominação, não vai mostrar alegria, mas também não vai perder a confiança no destino de um país que, apesar da dor, das perdas e da exploração vai renascer na esperança de um futuro de prosperidade e abundância para todos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do LN21

Mônica de Toledo e Silva Spegiorin é geógrafa, professora, consultora em educação, especialista em mediação da aprendizagem nas Ciências Humanas e membro do Comitê de Bacias Hidrogáficas do Litoral Norte.

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