Coluna
Territorialidades: diálogo, reflexão e ação

Sempre, no dia 8 de março, vemos nas ruas, nas redes sociais, na grande mídia, uma infindável referência ao Dia Internacional da Mulher. Descolado do fato histórico de luta das mulheres de Nova Iorque, que em 1857 foram assassinadas por pedirem redução de jornada de trabalho e equiparação salarial com os homens, o dia da mulher foi sendo transformado em mais um evento do mercado, com seus presentes e celebrações. Passados mais de 150 anos, pouco avançamos, pouco conquistamos, apesar de tanta evolução na ciência, na tecnologia, continuamos na desigualdade entre homens e mulheres.

Alguns podem dizer que não é bem assim que acontece. Que esse é um discurso de rancor e que destrói a doçura e a delicadeza das mulheres. Que cria antagonismo e discórdia nas relações sociais, prejudicando as relações familiares, antes tão harmônicas e pacíficas. Alguns chegam ao absurdo de falar em machismo reverso, como se os homens em algum momento da história da humanidade pudessem ser vítimas da tirania e dos abusos vivenciados pelas mulheres.

Entretanto, a reflexão sobre a situação da mulher na sociedade, vai muito além dos afetos, do romantismo, da maternidade, do matrimônio, das desigualdades salariais e das oportunidades de trabalho e carreira. E no caso do Brasil, essa condição da mulher é ainda mais agravada, face à enorme desigualdade social.

Basta buscarmos na memória o nome das mulheres que fazem parte da nossa história brasileira e mundial para percebermos o apagamento da presença feminina na política, na ciência, na liderança do setor produtivo. São raras as mulheres que possuem lugar em nossa lembrança e ainda falamos com espanto e destaque sobre mulheres na presidência, na governança dos mais altos cargos no mundo, visto como algo inusitado, exótico e surpreendente.

Especialmente no Brasil, as mulheres no poder são sistematicamente desqualificadas, desprestigiadas e sofrem caricaturas agressivas e desrespeitosas, sem falar na permanente associação do sucesso dessas mulheres à ausência de feminilidade, de beleza, delicadeza ou êxito na vida pessoal, através de um discurso machista e preconceituoso, carregado de paradigmas de uma sociedade patriarcal.

Sendo assim, no dia de hoje, mais do que um dia de parabenizar as mulheres, hoje é dia de reconhecimento, de valorização e de busca por uma transformação da violência, da opressão e da desigualdade. Hoje é dia de reverenciarmos essa luta das mulheres por equidade, muito mais que igualdade, reconhecendo as diferenças de gênero em seus aspectos biológicos, culturais e sociais, mas atribuindo às mulheres todo o valor que verdadeiramente possuem.

Nessa linha, hoje é dia de lembrarmos historicamente das chamadas mães de leite, que amamentaram os filhos do senhor de engenho, das mucamas das fazendas de café, das mulheres indígenas e negras escravizadas estupradas, vítimas de uma violência naturalizada que promoveu a miscigenação de tantas etnias em nosso país, mas que não foi capaz de criar uma sociedade sem racismo e preconceito.

Hoje é dia de lembrarmos a existência da dupla ou tripla jornada de trabalho das mulheres, muitas delas mães sozinhas, desamparadas por aqueles que se fizeram valer das paixões para satisfazer seus desejos e prazeres, mas que depois fogem de suas responsabilidades paternas, impondo leis que oprimem e submetem as mulheres a valores religiosos opressores e uma maternidade de carência e abandono.

Hoje é dia de pensarmos nas milhares de professoras que educam, ensinam, acolhem crianças e jovens em escolas sem condições materiais adequadas, sem salários dignos e sem recursos para proporcionar, para os seus próprios filhos uma educação e uma vida de prosperidade. São profissionais idealistas, dedicadas e competentes, que não recebem o reconhecimento social justo e merecido.

Hoje é dia de lembrarmos a imensa maioria de enfermeiras, merendeiras, empregadas domésticas que cuidam de nossa saúde, de nosso alimento, de nossos dejetos, construindo um verdadeiro exército de mulheres abnegadas, afetuosas, responsáveis e comprometidas com o bem comum, que garantem a possibilidade de dedicação ao trabalho em outras frentes, de uma massa de trabalhadores que sustentam a economia do país.

Hoje é dia de lembrarmos as mulheres agricultoras que, pari passu com os homens, estão nas lavouras de alimentos dos pequenos produtores, ou garantindo as monoculturas de cana, café, soja, cacau desde os tempos coloniais, em meio à gestação de seus filhos e os afazeres domésticos, que nunca são poupadas.

Hoje é dia de pararmos de chamar nossas meninas de princesas, de darmos a elas as bonecas, panelas, batons para reforçar esse modelo opressor, hierárquico e patriarcal, que impede que as mulheres alcancem verdadeiramente a liberdade e reconhecimento social e cultural justos pelo seu papel na história.

Portanto, hoje não é o dia das flores, perfumes e presentes. Nem das frases e versos que exaltam a resignação, o silenciamento e o apagamento das mulheres na história e na sociedade. Hoje é dia de tomada de consciência, de mudança, de celebração da resistência feminina. Hoje é dia de prestigiar a potência do feminino! Hoje é dia de reverência ao papel da mulher na sociedade!!

Hoje não é o dia da mulher. Hoje é o dia de reconhecer a luta das mulheres e caminhar conosco por uma sociedade justa e igualitária!!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do LC28

Mônica de Toledo e Silva Spegiorin é geógrafa, professora, consultora em educação, especialista em mediação da aprendizagem nas Ciências Humanas e membro do Comitê de Bacias Hidrogáficas do Litoral Norte.

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