Coluna
Territorialidades: diálogo, reflexão e ação

A visão de um formigueiro e do infindável trabalho das formigas são imagens que facilmente resgatamos em nossa memória. Disciplinadas, perseverantes, obstinadas, nunca estão sozinhas em suas tarefas, as formigas são um bom exemplo de construção coletiva, colaborativa de um projeto comum.

A vida comunitária mais próxima da natureza, relacionada à força da Mata Atlântica no Litoral Norte, é formada por um trabalho similar, contínuo e contumaz de centenas de pessoas que, na maioria das vezes, não conhecemos sua existência e não reconhecemos sua importância, relevância e necessidade.

A preservação e conservação do território litorâneo pertencente à Mata Atlântica, alvo de ocupação e devastação desde a chegada do colonizador e, na atualidade, vítima da pressão imobiliária, do turismo de massa e da falta de ordenamento e regramento de seu desenvolvimento econômico e urbano, acontece como o trabalho de formiguinhas organizadas, seja pelo desejo espontâneo e voluntário da sociedade civil ou por inúmeras instituições públicas ou privadas voltadas para as demandas socioambientais.

Enquanto grande parte dos turistas e munícipes se relaciona com essa territorialidade, apenas usufruindo das paisagens de maneira utilitária, ou seja, uma relação marcada pelo hedonismo, consumismo e falta de consciência da complexidade e fragilidade desse lugar, há um verdadeiro exército de profissionais ou voluntários, que trabalham para o bem comum e para salvaguardar a natureza na região costeira.

Ao contrário de muitos turistas e veranistas, de comerciantes ou locadores de imóveis, pouco envolvidos com o compromisso de preservar esse conjunto de belezas e atrativos naturais constituído por mar, praia, costão e mata, formando uma das paisagens cênicas mais admiráveis do país; os ativistas e ambientalistas são pessoas engajadas nas mais diversas frentes de atuação, para garantir a segurança e o bem estar das pessoas, a preservação ambiental e a construção de uma relação harmônica entre natureza e sociedade.

No campo das instituições públicas, compostas por um funcionalismo altamente qualificado, há uma complexa articulação entre leis, procedimentos, vigilância, fiscalização e punição que garantem que o território não seja devastado, que as comunidades tradicionais sejam mantidas e respeitadas em sua cultura e modo de viver de seus antepassados, apesar de serem, com frequência, desqualificados pelo modelo consumista predominante no mundo moderno.

Conjuntamente, é o trabalho da sociedade civil organizada, amparada por esses profissionais idealistas, sobretudo pela falta de adequadas condições de trabalho, desvalorização e desconhecimento da importância das atividades que realizam, que a preservação socioambiental de fato acontece.

Em oposição às praias lotadas por pessoas que ignoram os inúmeros atrativos naturais da região, que desperdiçam muitas vezes sua estadia apenas gerando lixo e contaminação das águas, decorrentes da falta de consciência ambiental e de uma infraestrutura precária, que não acompanhou o crescimento populacional e o avanço da especulação imobiliária. Ou que querem reproduzir aqui o modelo de ocupação incompatível com o ambiente e a realidade local, temos diferentes grupos de ambientalistas lutando para a manutenção desse patrimônio socioambiental da vertente litorânea do estado mais rico e populoso do país. E que, por esse motivo, sofre enorme impacto e degradação ambiental.

Alguns desses grupos atuam por meio de mutirões de limpeza das praias ou instalando bóias de contenção de resíduos sólidos nos rios, para que não atinjam o mar. Cuidam de populações em áreas com risco de enchentes e desmoronamentos. Outros estão organizados em cooperativas de catadores de resíduos para a reciclagem, gerando emprego e renda para a população local, além de muitas atividades voltadas para a educação ambiental, para formas alternativas de saneamento e compostagem.

Organizados em colegiados, formados por representantes do poder público e da sociedade civil, atuam para garantir a segurança hídrica, com sistemas de prevenção de acidentes naturais, saneamento básico, educação ambiental e sistemas agroflorestais.

Nesses grupos, reúnem-se desde profissionais, pesquisadores e educadores; experientes e com formação acadêmica sólida, tecnicamente bem preparados, que com um conhecimento multidisciplinar, desenham alternativas sustentáveis para a região, juntamente com as comunidades locais organizadas em associações de bairro, pastorais, câmaras técnicas ou ainda, as comunidades tradicionais de caiçaras, quilombolas e indígenas que trazem em sua ancestralidade, um saber profundo sobre o respeito à natureza.

Apesar da pressão no território estar destruindo marcas da história da região, desfigurando paisagens e expulsando a população local, em um perverso processo de gentrificação, há pessoas dedicadas a pensar e colocar em prática nos municípios do Litoral Norte, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável definidos pela Organização das Nações Unidas para a próxima década. Tendo como meta garantir a preservação planetária para as próximas gerações, realizando mudanças estruturais na organização e gestão do território.

Nesses projetos e ações, nesses diferentes grupos de trabalho e de proteção socioambiental, acontecem muitos embates e enfrentamentos que chegam a colocar em risco a integridade física de seus participantes, envolvendo disputas de terras, desmatamento, flagrantes de contaminação das águas e do solo, denúncias ao ministério público, à imprensa, monitoramento das ações dos poderes legislativo e executivo.

Nessa linha, também não podemos ignorar o trabalho dos coletivos feministas que desempenham ações de combate à violência psicológica, física e emocional que atingem especialmente as mulheres, mas do mesmo modo crianças e jovens, fragilizados por condições materiais precárias e por um patriarcado opressor e preconceituoso, que diariamente mostra sua face mais hedionda. São atividades de amparo e assistência social realizadas por esses grupos de apoio, formados por psicólogas, médicas, educadoras, artistas que mobilizam recursos de toda a ordem para socorrer pessoas em risco.

Todos esses grupos, muitas vezes anônimos e desconhecidos, são na verdade a alma desse lugar. São essas formigas incansáveis e obstinadas pelo bem coletivo que estão garantindo a sobrevivência desse território. A preservação da abundância e da potência desse ecossistema, que ao mesmo tempo se mostra tão frágil e delicado.

Portanto, é urgente prestarmos atenção às ações desses grupos de voluntários corajosos e perseverantes, assim como no trabalho do funcionalismo público, tantas vezes desqualificado e desprezado, para entendermos a urgência das causas que defendem e lutam cotidianamente. Apoiando e dando visibilidade ao trabalho realizado por todos.
Essas pessoas com brilho nos olhos, com sorriso no rosto, com foco no bem comum, não carregam uma utopia com sentido de ingenuidade ou alienação. Esses grupos na verdade, defendem o fim da atual distopia que transforma natureza em mercadoria, vida em servidão pelo consumismo, individualidade em egoísmo e a violência contra as pessoas e a natureza em banalidades cotidianas.

Viver em contato com a natureza pulsante desse lugar é aguçar a sensibilidade para a essência da vida, das pessoas e da transcendência. E muito mais que usufruir. É desfrutar da possibilidade de transformação de cada um de nós e de toda a lógica planetária vigente, construindo novas possibilidades e novos vínculos, para um mundo melhor e mais inclusivo para todos. É acreditar na Utopia como potência de agir!

Compreender essa territorialidade significa respeitar a identidade local, valorizar seus princípios e reconhecer a enorme contribuição dessas “formigas” aguerridas das causas socioambientais, focadas no afeto, no bem comum e na sustentabilidade.

Mônica de Toledo e Silva Spegiorin é geógrafa, professora, consultora em educação, especialista em mediação da aprendizagem nas Ciências Humanas e membro do Comitê de Bacias Hidrogáficas do Litoral Norte.

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