Em uma decisão monocrática, a Liga Ubatubense de Futebol surpreendeu dirigentes de clubes e atletas que disputam o Campeonato Municipal de Futebol ao divulgar um comunicado em que revoga a decisão anterior de suspensão dos atletas envolvidos em uma pancadaria durante a final da Copa Sul, realizada no campo do Sertão da Quina, entre os times Folha Seca e Geração Eleita. A nova determinação permite a participação desses jogadores nas competições deste ano.
As imagens das agressões foram amplamente divulgadas nas redes sociais. Diante da gravidade do ocorrido, uma audiência pública chegou a ser realizada na Câmara Municipal para discutir medidas contra a violência nos eventos esportivos, especialmente no futebol amador. Na ocasião, treinadores, atletas, professores e pais clamaram por respeito, investimento e valorização do esporte.
Contrariando o clima de repúdio à violência e as medidas propostas, a entidade que rege o futebol em Ubatuba retrocedeu na punição aos envolvidos, permitindo sua participação nos torneios de 2025, inclusive na primeira divisão, que já está em andamento. Segundo documento assinado pelo presidente da entidade, Edmundo Santana Bispo, com a aprovação do calendário de 2026, quando serão realizadas competições como a Copa Sul, o cumprimento das penas de suspensão ocorrerá apenas no ano seguinte, respeitando o que ele chamou de "equivalência das competições".
A decisão gerou forte reação. O LN21 recebeu manifestações de atletas, dirigentes de clubes e até mesmo membros da própria Liga, todos indignados com a mudança de postura, considerada por muitos com "um grande abusrdo". Um dos argumentos apresentados pelo presidente da entidade foi de que a medida estaria amparada no artigo 141 do Código da Liga.
Legalidade X Moralidade
Contudo, vários questionamentos foram levantados. Um dos principais é que, embora possa até ser legal, a decisão é considerada imoral por contrariar os esforços contra a violência no futebol local. A legalidade também é posta em xeque, uma vez que a aprovação do novo calendário ocorreu após a decisão colegiada de punição, sugerindo que a revogação se deu por ato unilateral.
Um dos argumentos ouvidos de um dos membros da diretoria da Liga, e que defende a decisão monocrática adotada pelo presidente da entidade, é de que, na Libertadores, por exemplo, um atleta punido no último jogo cumpre suspensão na Libertadores seguinte. No entanto, o dirigente, se esquece que a punição por ele retratada se refere à expulsões e cartões, não em casos de suspensão por agressão. No caso de suspensão por violência, como resultado de decisão tomadas em julgamento, as punições são válidas e aplicadas nas competições organizadas pela entidade na qual o atleta foi jugado, independente da competição na qual o ato violento, causador da suspensão, foi realziado. Portanto, em competições da CBF, por exemplo, um jogador suspenso por algum período por atos de indisciplina cumpre nos torneios organizados pela CBF, independentemente de ser no mesmo torneio ou não. Por exemplo, em casos de fato ocorrido no Cam,peonato Brasileiro, se for punição por prazo, se cumpre a suspensão por também na Copa do Brasil, o que derruba por terra o argumento utilizado pelo diretor.
A moralidade da decisão é o ponto mais criticado. Um membro da diretoria da Liga declarou, sob anonimato, que pretende entregar o cargo caso a decisão não seja revista. "Não compactuo com isso", afirmou.
Dirigentes temem que a medida incentive agressões a árbitros e outros agentes. "Sem rigor nas punições, apitar futebol amador vai se tornar ainda mais perigoso", disse um dirigente.
Um diretor de clube da região sul já adiantou que vai trabalhar para que não sejam realizados jogos da Copa Sul no campo do Sertão da Quina, independente de quem realize a competição. "Vamos trocar a Copa Sul e fazer alguma coisa para a menor idade, tipo sub 15, sub 9, sub 10. A gente não vai trazer porque manchou o nome do clube, da região. Ficou como se nossa região fosse muito violenta, com muito clube não querendo vir jogar aqui, nesse campeonato da liga. A gente tomou pancada pra caramba e agora a Liga tem uma atitude dessa aí. Ferrou a gente", finalizou.
Dirigentes acham medida absurda
Entre dirigentes de clubes, a opinião contra a medida adotada é quase um unanimidade. Diversos diretores já se manifestaram criticando a medida. Inclusive, no grupo que reúne dirigentes da Liga e de clubes, uma opinião em áudio à qual o LN21 teve acesso ressalta que um dirigente acredita que a Liga vai ser alvo de duras críticas em razão da decisão monocrática do presidente Edmundo Santana Bispo. "Rrapaziada, no papo mesmo, Liga vai tomar pancada pra c. por causa dessa decisão aí que tomou. Pelo amor de Deus, mano, orienta seus atletas, orienta seus diretores. Para de ir para a beira de campo para arranjar confusão", destacou.
A fala deixa claro que é o entendimento da maioria é de que a decisão é equivocada e que abre precedente para permitir que a violência, que deveria ser combatida pela direção da Liga, ganhe força, diante da impunidade que a decisão proporciona.
Prejuízo Regional
Para quem pensa que a medida é apenas um complicador local, engana-se. O LN21 apurou que a decisão tomada pelo presidente da Liga afeta a imagem de Ubatuba na região. Com a regionalização do futebol e com atletas que disputam competições por mais de uma cidade, haveria um acordo entre os dirigentes de Caraguatatuba, São Sebastião, Ilhabela e Ubatuba de que atletas punidos em uma cidade não teriam direito a disputar competições oficiais das entidades das outras cidades do Litoral Norte. No entanto, com a decisão da LUF, a expectativa é de que isso repercuta negativamente nos outros municípios.
"Temos trabalhado com as outras cidades para garantir a segurança dos atletas e arbitragem. Garantimos para as outras cidades, Caraguá, São Sebastião, Ilhabela que a gente cumpriria as punições e que lutaríamos juntos contra a violência, mas, e agora, com que cara eu fico? Vou passar vergonha", disse um dirigente esportivo de Ubatuba.
No fundo, a LUF sabe que é um erro
É possível entender, diante da própria fala da presidência da Liga que ela mesma sabe o erro que está cometendo. No texto encaminhado aos dirigentes junto com a decisão, o presidente destaca que, além de ser uma medida irrevogável, ressaltando a posição autoritária do atual presidente, já que a Liga são os clubes, e não a presidência, ele ressalta que não irá se pronunciar sobre a medida, possivelmente, por entender que, no fundo, não há argumentos morais que justifiquem a nova postura adotada.
Segue, abaixo, e na íntegra, o texto encaminhado pleo presidente ao clubes, junto com a decisão:
"Boa tarde, senhores representantes dos Clubes envolvidos no Campeonato Municipal 2025. A Liga Ubatubense Juntamente com todo corpo Jurídico, após dias e dias analisando aos diversos pedidos para que podessesmos rever todos os relatórios e conteúdos em vários níveis de vídeos tanto pela TV CAIÇARA QUE FAZIA AS TRANSMISSÕES naquela data. Segue a nossa decisão para que os Clubes tomem ciência da nova decisão. Informamos ainda, que, essa é uma irrevogável e nenhum membro da Diretoria da Liga irá se pronunciar nem por telefone nem pessoalmente representante a nova decisão."