Puruba: onde o rio encontra o mar e a memória ainda respira

No Puruba, em Ubatuba, mata, rio e mar formam um dos últimos refúgios caiçaras do litoral paulista — guardado na memória de quem sempre viveu ali.

- Redação
19/01/2026 10h30 - Atualizado há 1 mês
5 Min

Puruba: onde o rio encontra o mar e a memória ainda respira
Fotos: Wendell Marques
RESUMO Sem tempo? Leia o resumo gerado por nossa IA
Clique aqui para Ler o Resumo

No Puruba, em Ubatuba, a natureza preservada e a memória humana caminham juntas. Entre a Mata Atlântica, o rio de águas calmas e o mar aberto, vive Benedito Alexandre de Oliveira, seu "Dico", 92 anos, nascido e criado no local. Sua história revela uma infância marcada pelo trabalho precoce, pela pesca artesanal, pela roça, pelas canoas feitas à mão e por uma vida comunitária baseada na partilha. Um retrato sensível de um território onde paisagem e identidade ainda se confundem.

Há lugares em Ubatuba que não se revelam à primeira vista.

Eles não se impõem. Não chamam. Não disputam atenção.

Esperam.

O Puruba é um deles.

 Foto: Wendell Marques

Ali, a Mata Atlântica não é pano de fundo — é presença constante, viva, fechando o horizonte em tons de verde espesso. A floresta acompanha o curso do rio Puruba, que corre manso, quase sem ruído, até encontrar o mar. O encontro entre água doce e salgada acontece com delicadeza, como se a paisagem tivesse aprendido, ao longo do tempo, que pressa não combina com a existência.

 Foto: Wendell Marques

É essa relação rara e equilibrada entre mata, rio e praia que transforma o Puruba em um dos cenários mais emblemáticos e preservados do Litoral Norte paulista. Reconhecido por pesquisadores, ambientalistas e órgãos de proteção ambiental como uma área de alta relevância ecológica, o Puruba ainda mantém características que se tornaram exceção: curso d’água limpo, vegetação contínua e um modo de vida tradicional, que resiste, como pode, ao avanço desordenado do turismo, que, por vezes, beira o predatório, e da urbanização.

Mas o Puruba não se explica apenas pela paisagem.

Ele se entende, sobretudo, pelas pessoas que nasceram e ainda moram ali.

Uma delas é senhor Benedito Alexandre de Oliveira, o seu “Dico”, 92 anos, um dos moradores mais antigos do lugar. Nascido e criado no Puruba, ele fala do lugar como quem descreve o próprio corpo — com intimidade, precisão e memória.

 Foto: Wendell Marques

“Eu nasci aqui. Criei tudo aqui. Nunca saí daqui”, diz, sem cerimônia, como quem constata um fato simples. A infância do seu “Dico” começou cedo. Cedo demais até, pelos padrões de hoje.

“Eu comecei a trabalhar com cinco anos de idade. Não tinha escola. Se não tinha escola, minha mãe dizia que não podia ficar vadiando”, conta.

Naquele tempo, o Puruba era feito de poucas casas de sapê, espalhadas próximas ao rio. A eletricidade não existia. A água vinha do próprio curso d’água. O sustento vinha da terra, da pesca e da força do corpo. “A gente trabalhava na roça, plantava mandioca, feijão, milho. Café também. Tudo era no braço”, lembra.

Mas, se o trabalho era pesado, a infância ainda encontrava espaço para correr solta. O rio era o território das brincadeiras.

“Minha infância foi mexer no rio. Eu não podia ver água que já caía dentro”, diz, abrindo um sorriso que atravessa o tempo.

O mesmo rio que hoje atrai visitantes em busca de tranquilidade já foi caminho de grandes peixes e sustento de famílias inteiras. Benedito viu coisas que hoje parecem lenda. “O mero entrava no rio. Entrava mesmo. Eu vi. Hoje não entra mais. Hoje não tem mais”, lamenta.

A fala não carrega nostalgia vazia, mas consciência. Ele sabe que o tempo mudou o mar, a pesca e a relação do homem com a natureza. “O homem acabou com tudo”, afirma, em tom baixo, sem acusação direta — apenas constatação.

A pesca artesanal era feita em grupo. Ninguém pescava sozinho para si. “Aqui era assim: quem ia pescar dividia. Tinha o quinhão de cada família. E tinha até o quinhão do santo”, recorda. Era uma vida guiada pela partilha, pelo respeito e pela noção clara de pertencimento. O peixe não era mercadoria. Era alimento. Era vínculo.

Além da pesca, seu “Dico” aprendeu cedo a fazer canoa. O aprendizado veio do tio, usando apenas ferramentas simples. “Era machado. Só machado e goiva. A gente levava uns vinte dias pra fazer uma canoa”, explica.

Ele sabe, como poucos, o comportamento da madeira e da água. “A água doce estraga mais a canoa do que a do mar. A água doce destrói”, ensina, com a autoridade de quem viveu isso na prática.

À noite, a luz vinha do lampião. O tempo desacelerava. Havia a chiba, a viola. A dança seguia regras não escritas. “não é que nem hoje. Não tinha esse negócio de ficar se agarrando. Havia muito respeito”, lembra.

O Puruba que seu “Dico” descreve não é idealizado. Era duro. Exigia trabalho. Exigia resistência. Mas tinha algo que hoje se tornou raro: continuidade. “A gente era feliz e não sabia”, resume.

A opinião é compartilhada pela dona Maria Aparecida de Oliveira, chamada carinhosamente de Tia Baía, de 86 anos, também nascida e criada no Puruba.

 Foto: Wendell Marques

Assim como ele, a lembrança também toma conta dela com carinho. A fala doce recorda o tempo de uma infância de trabalho, mas também de muita brincadeira.

“ A gente brincava de esconde-esconde. A gente se divertia bastante. A gente era feliz e não sabia”, ressalta.

Hoje, quem chega ao Puruba encontra uma das paisagens mais bonitas de Ubatuba: a travessia do rio, as canoas alinhadas, a praia ampla, a mata fechada envolvendo tudo. Mas, por trás da imagem paradisíaca, existe uma história viva, sustentada por pessoas como seu “Dico” e dona “Baía”.

O Puruba não é apenas um destino. É um território de memória. Ali, o rio ainda corre como correu na infância deles. A mata ainda observa, silenciosa. E o mar continua chegando — todos os dias — como chegou para quem nasceu ali e nunca foi embora.


Tags »
Notícias Relacionadas »
Comentários »
Comentar

*Ao utilizar o sistema de comentários você está de acordo com a POLÍTICA DE PRIVACIDADE do site https://ln21.com.br/.