No extremo sul de Ubatuba, o Quilombo da Caçandoca se tornou símbolo de resistência cultural e territorial no litoral paulista. Mais do que uma das praias mais preservadas da região, o local abriga uma comunidade que, após séculos de permanência e décadas de disputas fundiárias, conquistou reconhecimento oficial como território quilombola. Hoje, diante da pressão crescente do turismo de massa, moradores buscam transformar a visitação em turismo que valoriza a história, a cultura e a sustentabilidade. Com iniciativas que vão da gastronomia tradicional à reabertura de escola e implantação de ensino superior no próprio território, a Caçandoca tenta provar que preservar não é impedir o acesso — é ensinar a olhar.
Há lugares em que a paisagem parece falar. O Quilombo Caçandoca, e suas praias, é um deles. Ali, no extremo sul de Ubatuba, o mar chega manso, quase respeitoso, como se soubesse que pisa em território antigo. A areia guarda pegadas de gerações. A mata observa em silêncio. E a história continua respirando — ainda que muita gente passe por ali sem perceber.
Para a maioria dos turistas que chega em busca de um pedaço de paraíso no litoral norte de São Paulo, Caçandoca é apenas mais uma praia bonita.
Para quem vive ali, ela é muito mais.
É território.
É memória.
É quilombo.
E é justamente essa diferença de olhar que hoje mobiliza a comunidade.
“Hoje praticamente 80% da comunidade trabalha com turismo”, conta Mário Gabriel do Prado, morador do território quilombola. “Mas infelizmente ainda é um turismo de massa. A comunidade está buscando caminhos para mudar isso e trabalhar com turismo de base comunitária.”
Foto: Wendell Marques
A fala de Mário resume o desafio que se desenha no horizonte da Caçandoca: preservar cultura e território enquanto milhares de visitantes atravessam suas trilhas e estradas de terra todos os anos.
Uma história que vem de longe
O Quilombo da Caçandoca é um dos territórios quilombolas reconhecidos oficialmente no estado de São Paulo.
A comunidade descende de africanos escravizados que se estabeleceram na região ainda no século XIX, formando uma rede de famílias que sobreviveram entre a mata atlântica, o mar e pequenas roças. Durante décadas, no entanto, a história da Caçandoca foi marcada por disputas fundiárias.
A comunidade enfrentou longos conflitos judiciais pela posse da terra até conquistar o reconhecimento oficial como território quilombola, processo consolidado com decisões judiciais e decretos estaduais ao longo dos anos 2000 e 2010. Mais do que uma vitória jurídica, foi uma reafirmação de identidade.
Porque o Quilombo Caçandoca não é apenas uma praia. É um território que inclui áreas como Caçandoquinha, Praia da Raposa, Praia da Lagoa, Saco das Bananas e Praia do Simão, além de trilhas antigas e ruínas que contam capítulos esquecidos da história do litoral paulista.
Foto: Wendell Marques
“Quando a gente fala Caçandoca, as pessoas pensam só na praia, mas o território quilombola é muito maior. Tem trilhas, histórias, famílias que vivem aqui há gerações”, explica Mário.
O turismo que chega - e o que a comunidade quer
Nos meses de verão, a tranquilidade do território muda completamente. Carros descem a estrada em fila, barracas se espalham pela praia, e a pequena comunidade passa a conviver com um fluxo que às vezes parece grande demais para o lugar.
Segundo os próprios moradores, em dias de alta temporada, o território chega a receber mais de mil carros por dia. “Se você multiplicar isso por quatro ou cinco pessoas por carro, é muita gente”, diz Mário. Mas, ele ressalta que o problema não é exatamente o visitante, e sim o tipo de visita.
“Esse turismo de massa vem, traz tudo, não consome nada na comunidade e acaba deixando um impacto muito grande de lixo, de esgoto”, afirma.
Por isso, a comunidade começou a discutir uma mudança de rota. A ideia é reduzir a pressão da alta temporada e fortalecer um turismo diferente — mais lento, mais consciente e mais conectado com a história local.
O caminho: turismo de base comunitária
A ideia de modelo que começa a ganhar força dentro da Caçandoca é conhecido como turismo de base comunitária. Em vez de grandes fluxos concentrados no verão, a proposta é distribuir visitantes ao longo do ano e oferecer experiências ligadas à cultura local.
Entre as ideias discutidas pela comunidade estão:
• trilhas guiadas pelo território quilombola
• passeios de barco conduzidos por moradores
• oficinas culturais
• gastronomia tradicional
• visitas guiadas sobre a história da comunidade
“A ideia é que cada comerciante saiba contar a história da comunidade e receber o turista”, explica Mário. Assim, o visitante deixa de vir apenas pela praia, e passa a vir pelo território.
A gastronomia quilombola na Caçandoca nasce da terra e do tempo. Peixes frescos, banana, mandioca e mariscos ganham preparo simples, mas carregado de memória, em receitas que atravessaram gerações. Não há pressa nem excesso — há respeito ao que se planta, ao que se pesca e ao momento de cada ingrediente. Comer ali não é apenas alimentar-se, é participar de uma história viva. O cuidado no preparo, a atenção aos temperos, ao tempo de preparação, ao ritual do fazer, faz da gastronomia um instrumento de sabor ao mesmo tempo que atua na manutenção histórica do saber quilombola.
Fotos: Wendell Marques
As mãos que preparam os pratos que são carregados de amor, sabor e tradição. No preparo, Benedita Gabriel, a Dona Dita; na sequência o prato que encanta aos olhos antes de ser saboreado, e Dona Rosa, figura que também é responsável pela manutenção das raízes gastronômicas do local.
A cultura segue viva
Apesar dos desafios, a cultura do Quilombo Caçandoca segue pulsando. A comunidade mantém tradições ligadas à pesca artesanal, culinária caiçara e manifestações culturais de matriz africana. Entre os jovens, grupos de maracatu, capoeira e artesanato tradicional ajudam a manter viva a ligação com a história ancestral.
“Hoje os jovens estão mais interessados em conhecer a cultura da comunidade”, diz Mário. “Eles cresceram vendo essa luta pelo território e acabaram dando mais valor à terra.”
Em muitos casos, essa retomada cultural nasce dentro das próprias famílias. Filhos de pescadores voltam para o território, jovens participam de projetos culturais, e novas gerações começam a entender o significado de viver ali.
Foto: Wendell Marques
Mário, ou mestre Pezão, registrando a Capoeira como prática esportiva e cultural.
Entre o passado e o futuro
O Quilombo Caçandoca segue, como muitos territórios tradicionais do Brasil, tentando equilibrar três forças: a memória, a sobrevivência e o futuro. Enquanto turistas chegam em busca de mar azul e sossego, a comunidade trabalha para mostrar que ali existe muito mais.
Há trilhas que contam histórias. Há receitas que atravessaram gerações. Há ruínas escondidas na mata. E há um povo que insiste em continuar ali.
Talvez por isso, quando o vento passa pela praia no fim da tarde, ele traga algo que poucos visitantes conseguem perceber: não é apenas o som do mar, é a memória de um lugar que ainda resiste. E que, apesar de tudo, continua respirando.
Foto: Wendell Marques
Dona Maria em um dos eventos religiosos realizados no Quilombo, como demonstração de fé e de manutenção das raízes da comunidade.
Não se pode falar do Quilombo sem falar da Dona Maria da Caçandoca, lider da comunidade local e mestre quilombola, é uma ilustre representante das comunidades caiçara e quilombola de Ubatuba, guardiã das tradições e costumes dos ancestrais. Muitas das conquistas da comunidade são resultado do seu empenho e sua luta.
A fazenda, a abolição e os que ficaram
A história do Quilombo Caçandoca começa muito antes do turismo, muito antes da estrada e muito antes de qualquer disputa judicial.
Em 1858, o português José Antunes de Sá adquiriu a Fazenda Caçandoca, então uma propriedade rural dedicada à produção de café, cana-de-açúcar e outros cultivos que dependiam do trabalho de pessoas escravizadas. A fazenda se dividia em três núcleos principais: Caçandoca, Saco da Raposa e Saco da Banana, administrados por diferentes membros da família proprietária.
Com a abolição da escravidão em 1888, repetiu-se ali uma dinâmica que marcou boa parte do país: os herdeiros da fazenda ficaram com os documentos e os ex-escravizados ficaram com o território onde já viviam. Sem título, sem escritura, mas com vínculos construídos ao longo de décadas. E ficaram. Plantaram banana e mandioca, pescaram no mar que começa a poucos metros da mata atlântica, construíram casas simples e mantiveram tradições que misturavam heranças africanas e cultura caiçara.
Com o passar das gerações, o território ocupado pelas famílias quilombolas se espalhou por diferentes áreas da região, incluindo Caçandoquinha, Praia da Raposa, Saco das Bananas e Praia do Simão. Ali, a história não está apenas nos registros, ela está no chão.
A estrada que trouxe o conflito
Durante boa parte do século XX, o isolamento geográfico ajudou a preservar a Caçandoca. Isso mudou em 1974, quando a Rodovia Rio-Santos (BR-101) foi concluída no trecho que corta Ubatuba.
A estrada trouxe visitantes, e trouxe também algo que mudaria profundamente a relação da comunidade com seu território: a especulação imobiliária. Empresas passaram a comprar áreas no litoral com a intenção de desenvolver loteamentos e casas de veraneio. Uma delas, a Urbanizadora Continental, adquiriu cerca de 210 hectares dentro da área tradicional ocupada pela comunidade, mas passou a reivindicar controle sobre uma extensão ainda maior. Nas décadas seguintes, famílias quilombolas enfrentaram pressões, conflitos fundiários e tentativas de retirada da comunidade da área. A comunidade, no entanto, permaneceu.
Fotos: Wendell Marques
O reconhecimento como território quilombola
A organização política da comunidade ganhou força nos anos 1990. Moradores criaram uma associação e iniciaram um longo processo de reconhecimento territorial. Em 2000, o ITESP (Instituto de Terras do Estado de São Paulo) produziu o relatório técnico-científico que comprovava a origem quilombola da comunidade. Cinco anos depois veio o reconhecimento oficial. Em 2005, a Fundação Cultural Palmares certificou o Quilombo Caçandoca como comunidade remanescente de quilombo. No ano seguinte ocorreu um fato considerado histórico. Em 2006, o governo federal publicou um decreto de desapropriação das terras da Urbanizadora Continental em favor da comunidade quilombola da Caçandoca. Foi a primeira desapropriação federal no Brasil realizada especificamente para garantir território a uma comunidade quilombola. A decisão foi confirmada pela Justiça Federal em Taubaté. A comunidade mantém hoje cerca de 890 hectares de território tradicional, já com a titulação definitiva.
Foto: Wendell Marques
A confirmação da Justiça Federal em Taubaté como resultado de anos de luta por reconhecimento e por direito ao território.
A escola que voltou a existir
Em 2024, a comunidade conquistou uma vitória simbólica que vai além da educação. Depois de cerca de 40 anos fechada, foi reinaugurada a Escola Municipal Quilombola Benedita Chrispin dos Santos. O nome homenageia uma antiga merendeira da escola, que trabalhou ali até o encerramento das atividades nos anos 1980. Para os moradores, a reabertura representa mais do que um espaço de ensino. É também um espaço de memória. Um lugar onde as crianças aprendem matemática, português e história — mas também aprendem que pertencem a um território que tem identidade e cultura próprias.
A Universidade que chegou ao Quilombo
Se a escola marcou a retomada da educação básica, a comunidade conquistou recentemente algo ainda mais inesperado. A comunidade da Caçandoca venceu um edital público educacional, o que permitiu a instalação de um polo universitário dentro do centro comunitário do quilombo. O projeto já está em seu segundo ano de funcionamento. Na prática, isso significa que jovens quilombolas podem agora acessar o ensino superior sem precisar deixar o território onde cresceram. É uma conquista que dialoga diretamente com o esforço da comunidade para manter as novas gerações conectadas à própria história. Estudar ali não significa apenas obter um diploma. Significa continuar pertencendo, como destaca um dos líderes comunitários Jurandir Cesário do Prado.
Foto: Wendell Marques
O olhar para o futuro a partir da manutenção das raízes e de um pasado de luta, como bem faz questão de frisar um dos líderes comunitários Jurandir Cesário do Prado.
Um território que insiste em existir
Hoje, o Quilombo Caçandoca continua tentando equilibrar aquilo que sempre fez parte da sua história: memória, território e futuro. Entre o mar e a mata, a comunidade mantém festas tradicionais como a Festa do Divino Espírito Santo, preserva manifestações culturais, mantém a pesca artesanal e fortalece iniciativas de turismo de base comunitária.
Foto: Wendell Marques
A pesca artesanal também é um dos grandes exemplos de luta, resistência e manutenção cultural.
Quem chega ali pode encontrar uma das praias mais bonitas do litoral norte paulista, mas quem escuta com atenção encontra algo ainda mais raro, um território que, mesmo depois de séculos de pressão, disputas e mudanças, continua afirmando algo simples: que ali existe mais do que paisagem, existe história. E ela ainda está sendo escrita.