Nadar 10 km, pedalar 421 km e correr duas maratonas. Em 3 dias. Em Ubatuba. 43 pessoas fizeram isso ontem — de livre e espontânea vontade

O único Ultraman da América do Sul terminou ontem em Ubatuba. Erick Duarte é bicampeão. Mas a pergunta que fica é outra: por que alguém escolhe, de livre e espontânea vontade, fazer isso?

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Nadar 10 km, pedalar 421 km e correr duas maratonas. Em 3 dias. Em Ubatuba. 43 pessoas fizeram isso ontem —
Foto: Luana Camargo
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A 13ª edição do UB515 Ultraman Brasil encerrou-se ontem, domingo (12), na Praia do Perequê-Açu, em Ubatuba. O paulistano Erick Duarte, 38 anos, cruzou a linha de chegada em 22h41min38s, tornando-se bicampeão da prova — título que havia conquistado pela primeira vez em 2021. No feminino, Fabi Silva conquistou a vitória. A edição de 2026 registrou recorde histórico de participantes, com 43 atletas na linha de largada e oito mulheres competindo — o maior número feminino em 13 anos de história do evento.

O UB515 é o único ultratriatlo da América do Sul realizado na distância Ultraman: 10 km de natação, 421 km de ciclismo e 84,4 km de corrida — distribuídos em três dias consecutivos, com largada diária às 6h. Inspirado no Ultraman World Championship de Kailua-Kona, no Havaí, o evento realizado em Ubatuba desde 2014 seleciona seus participantes por candidatura, análise de currículo esportivo e entrevistas. Não é para qualquer um. E é exatamente isso que o torna único.

Além dos resultados, o UB515 deixa uma pergunta que vai além do esporte: o que move alguém a escolher voluntariamente um sofrimento desse nível? A resposta, segundo atletas e organizadores, passa pelo autoconhecimento, pela ressignificação e por um lugar que não foi escolhido por acaso — Ubatuba, com seu mar aberto, suas estradas que cortam a Serra do Mar e sua Mata Atlântica como cenário e obstáculo ao mesmo tempo.

UBATUBA — Há uma lógica estranha no sofrimento voluntário. Uma que os triatletas de ultra distância conhecem bem — e que os organizadores do UB515 Ultraman Brasil aprenderam a cultivar ao longo de treze edições: quanto mais difícil a prova, mais intensa a fila de candidatos querendo entrar. No domingo (12), a 13ª edição do único Ultraman da América do Sul chegou ao fim na Praia do Perequê-Açu, em Ubatuba. Quarenta e três atletas, vindos de diferentes estados e países, completaram 515 quilômetros em três dias. Nenhum deles foi obrigado a estar ali.

Erick Duarte, paulistano de 38 anos que pratica triathlon há duas décadas, cruzou a linha de chegada como bicampeão — título que somou ao de 2021, quando venceu pela primeira vez. Seu tempo total: 22h41min38s. Fabiano Peres ficou com o vice-campeonato; Rafael Aragon, vencedor da etapa do último dia, completou o pódio masculino. No feminino, Fabi Silva conquistou o título, com Tatiana de Biasi em segundo e Pamela Oliveira em terceiro.

O que é o UB515 — e por que não é para qualquer um

O UB515 Ultraman Brasil é inspirado no Ultraman World Championship, realizado anualmente em Kailua-Kona, no Havaí — considerado uma das provas de resistência mais exigentes do planeta. A versão brasileira mantém a estrutura de três dias e distribui os 515 quilômetros que dão nome ao desafio em blocos progressivos de desgaste.

UB515 Ultraman Brasil 2026 — percurso oficial
Dia 1
10 km de natação + 145 km de ciclismo
Largada às 6h · Natação na Baía do Perequê-Açu · Ciclismo até Paraty (RJ)
155km


Dia 2
276 km de ciclismo
Largada às 6h · Paraty → Angra dos Reis (RJ) · Subida da Serra de Lídice
276km


Dia 3
84,4 km de corrida — dupla maratona
Largada às 6h · Trechos no Morro do Valério · Chegada ao Perequê-Açu, Ubatuba
84km

Para entrar, não basta querer. Os atletas precisam se candidatar, apresentar currículo esportivo e passar por entrevista com a organização. O nível de exigência física e emocional da prova é o filtro. Em 2026, cerca de 70% dos atletas eram estreantes — fazendo o UB515 pela primeira vez. Oito eram mulheres, o maior contingente feminino da história do evento. A candidatura, o currículo, a entrevista. Tudo isso antes de sequer chegar à largada.

"A prova é mais do que os 515 km. É uma jornada de autodescobrimento. Esse é o legado que queremos deixar."
— Alexandre Luna, coordenador do UB515


Por que Ubatuba — e por que não é acidental

O percurso do UB515 não começa e termina em Ubatuba por acaso. A cidade oferece o conjunto de condições que a prova exige: mar aberto na Baía do Perequê-Açu para os 10 km de natação, estradas que cortam a Serra do Mar para o ciclismo de dois dias, e o retorno à mesma orla — depois de passar por Paraty e Angra dos Reis, com subida da Serra de Lídice no percurso intermediário — para a corrida final de 84,4 km.

Quem chega ao fim percorreu, em três dias, uma distância maior do que a que separa São Paulo de Porto Alegre em linha reta. E fez isso com o litoral norte de São Paulo, a Mata Atlântica preservada e os municípios da Costa Verde como pano de fundo — paisagem generosa e terreno tecnicamente implacável ao mesmo tempo.

Ubatuba não é apenas sede. É parte da prova. Segundo o próprio bicampeão Erick Duarte, em entrevista antes da largada, o UB515 reúne tudo o que ele procura em uma competição de triathlon: "Principalmente em relação à beleza e dificuldade do percurso, excelente organização e ambiente entre os atletas." Para um atleta que já participou de 13 provas na distância Ironman, incluindo o Mundial no Havaí em 2017, essa é uma declaração de peso.

Pódio — UB515 Ultraman Brasil 2026
Masculino — classificação geral

Erick Duarte
22h41min38s · São Paulo (SP)

Fabiano Peres
23h22min22s

Rafael Aragon
24h20min — vencedor do Dia 3
Feminino — classificação geral

Fabi Silva
30h00min45s · Bahia

Tatiana de Biasi
30h25min27s

Pamela Oliveira
30h47min18s


O que fica para Ubatuba — e o que vem a seguir

O UB515 encerra um fim de semana esportivo intenso em Ubatuba, mas não encerra a temporada. O calendário de 2026 reúne 20 competições esportivas previstas para o município ao longo do ano — um recorde. Ainda em abril, nos dias 25 e 26, a Praia de Itamambuca recebe o Corinthians Surf Clube, abertura oficial da temporada de surfe. E entre 30 de abril e 3 de maio chega uma das maiores competições do circuito mundial: a etapa da WSL Qualifying Series (QS) 4000, que coloca Ubatuba no radar do surfe profissional internacional.

O secretário de Esportes de Ubatuba, Saulo Souza, resumiu o significado de sediar eventos como o UB515:

"O UB515 projeta Ubatuba no cenário nacional e internacional do esporte de endurance. É uma competição de altíssimo nível, que reúne atletas preparados para um desafio extremo e, ao mesmo tempo, movimenta a cidade, valoriza nossos cenários naturais e fortalece o esporte como instrumento de desenvolvimento e visibilidade para o município."

Mas o legado mais duradouro talvez seja aquele que nenhum número captura. Miriam Luna, diretora do UB515, explicou antes da largada o que tornava 2026 especial:

"Acredito que não conseguiremos segurar a emoção quando virmos 8 mulheres perfiladas junto com os demais irmãos na largada da natação. Sabemos que em geral, para as mulheres, é mais desafiador conciliar os treinos com as obrigações profissionais e familiares."

Oito mulheres. Recorde. Na linha de largada de uma prova que começava às 6h da manhã com 10 km de natação em mar aberto.

A pergunta que o UB515 faz a quem assiste de fora não é sobre triathlon. É sobre o que cada pessoa faz com o próprio limite. E Ubatuba, com seu mar, suas serras e sua Mata Atlântica intocada, continua sendo o lugar que melhor responde a essa pergunta — em silêncio, no trajeto entre a largada e a chegada.


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