Coluna
Territorialidades: diálogo, reflexão e ação

A chegada da temporada de verão de 2020/21 iniciou com toda força no feriado de 7 de setembro do ano passado, em plena pandemia da COVID-19, trazendo um misto de alegria e de preocupação aos moradores de Ubatuba. Se por um lado, o aquecimento do comércio, da hospedagem, dos aluguéis de casas de veraneio, bares, restaurantes e as atividades turísticas celebraram uma recuperação econômica em um ano muito restrito para esses setores, a população local vive o medo pela falta de infraestrutura hospitalar e de amparo social para os setores mais carentes da sociedade.

O distanciamento social, o uso de máscaras e as demais ações recomendadas pela organização Mundial de Saúde, não são devidamente adotados no Brasil, o que contribui para que o número diário de óbitos se mantenha muito elevado e o risco de contaminação permaneça por todo país, com situações alarmantes como ocorreu lamentavelmente em Manaus.

Soma-se a esse contexto da pandemia, o fato de todo Litoral Norte, mas Ubatuba em especial, o turismo de massa, desregrado e desordenado, que anualmente impacta a região com os problemas relacionados ao saneamento básico, coleta de resíduos, abastecimento de água, dificuldade de mobilidade, carência de atendimento médico e de segurança, devido ao enorme afluxo de turistas em busca de sol e praia, se torne uma preocupação ainda maior.

Historicamente, a população de todo o estado de São Paulo e regiões de estados vizinhos, se dirige ao litoral, em busca de uma possibilidade de lazer e convívio com a natureza, marcadamente no período do verão e feriados prolongados. Entretanto, com a pandemia, o aumento da população na cidade não se limita a esses períodos do ano. O trabalho a distância, as aulas virtuais, as compras remotas, trouxeram a possibilidade a muitas pessoas de permanecerem em Ubatuba por um longo período.

Também foi possível observar o grande aumento da população através da expansão do turismo de um dia e dos finais de semana expandidos, apesar das condições sanitárias, de infraestrutura, de mobilidade, de segurança, de abastecimento, de saúde e de saneamento não atenderem satisfatoriamente nem mesmo à comunidade local.

Essa realidade resultante da pandemia na região, gerados pelo aumento das atividades econômicas ligados ao turismo, hospedagem, esporte, lazer e a expansão da locação de imóveis de veraneio, trouxe novos usuários da infraestrutura local, juntamente com os munícipes, produzindo grande impactado para a cidade, devido à precariedade dos equipamentos públicos, a falta de regramento e ordenamento das praias, provocados por essa explosão populacional.

Por esse grave contexto, é urgente orientar, informar e organizar estratégias para reduzir ao máximo os riscos de contágio na região, avaliar profundamente a decisão ou não de retorno às aulas presenciais, o comportamento nas praias, o cuidado com as comunidades tradicionais, com nossas áreas de conservação, visando preservar a população local. Bem como ações de melhoria na infraestrutura, segurança e abastecimento para toda a região. Tais medidas, necessárias sempre, precisam ser encaradas como uma questão de saúde pública e não poderão ser postergadas ou negligenciadas, na justificativa de garantir o emprego e a economia.

Sendo assim, tenhamos em mente que o cancelamento dos pontos facultativos no período de carnaval, pode ser aparentemente um prejuízo para Ubatuba, mas que está sendo compensado pelo aumento e permanência dos turistas constatada desde setembro de 2020. Trata-se, portanto, de medida adequada à realidade atual, que pode salvar vidas e prevenir o colapso do sistema de saúde, até que se possa vacinar em massa toda a população.

O momento exige uma atitude responsável de cada um de nós. É hora de substituir as máscaras dos foliões, confete e serpentina, pelas máscaras de proteção, álcool gel, distanciamento social, dizendo não às aglomerações para garantir que a alegria e a vida sejam celebradas muito além do carnaval. Pensar no regramento e ordenamento definitivo das praias e dos demais atrativos turísticos com foco na sustentabilidade e no compromisso socioambiental também é necessário. Assunto importante, mas que fica para uma próxima conversa.

Mônica de Toledo e Silva Spegiorin é geógrafa, professora, consultora em educação, especialista em mediação da aprendizagem nas Ciências Humanas e membro do Comitê de Bacias Hidrográficas do Litoral Norte.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do LC28

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