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Nos últimos dias, um grande debate sobre a verticalização em Ubatuba ganhou força e mobilizou mais de 50 entidades, coletivos e associações que contestam mudanças nas leis de uso do solo propostas pela prefeitura e favorecem obras que estão irregulares segundo as regras vigentes.

Por falta de informações qualificadas, de narrativas enganosas e por claros interesses privados, os trabalhadores da construção civil estão sendo aterrorizados por um discurso muito bem engendrado, relacionando o desemprego a essas manifestações da sociedade civil organizada, que está apoiado na ideia que apenas as empreiteiras, construtoras e incorporadoras geram empregos para esses trabalhadores, além de impostos e recursos para a cidade.

Entretanto, a escassez eventual de empregos no setor existe porque a cidade não investe adequadamente em obras de infraestrutura, tais como melhorias das galerias pluviais, recapeamento e criação de ruas, calçadas com guias e sarjetas adequadas, áreas públicas de lazer, reformas nos imóveis já existentes e deteriorados, criação de loteamentos horizontais, novas escolas, postos de saúde e de policiamento, quadras de esporte, sistemas de iluminação, telefonia, estradas, imóveis populares para barrar as invasões e dar moradia digna, obras do sistema de esgoto.

Mas por que essas obras não acontecem como deveriam?? Por falta de recursos? De arrecadação? Por má gestão dos impostos?? Por falta de atividade econômica?

Por tudo isso sem dúvida! Mas também é importante perguntar sobre quem leva vantagem com uma cidade tão precária?? Sem fiscalização?? Sem punição?? Sem investimentos públicos?

O que me parece, é que não há interesse em aumentar a oferta de empregos na construção civil, de tornar a cidade um canteiro de obras públicas que retirariam os trabalhadores da dependência e da falta de oportunidades de trabalho, além do oferecido pelo setor privado.

Basta ver que, em todas as praias de Ubatuba faltam equipamentos de atendimento ao turista, como banheiros, chuveiros, áreas de alimentação para dar dignidade às pessoas que visitam Ubatuba. Somente esses investimentos trariam uma demanda por mão-de-obra para anos e anos, tirariam a precariedade de infraestrutura urbana e impediriam que o município se degradasse como assistimos dia-a-dia, porém nada se faz.

Também é enganosa a versão que as obras foram paralisadas no último ano em Ubatuba! Foram centenas de licenças dadas pela prefeitura e em toda parte há imóveis sendo reformados, ampliados e construídos nos mais diversos loteamentos, além dos inúmeros prédios que avançam em todo canto da cidade.

Logo, se a construção civil demitiu, foi pela crise econômica nacional, aprofundada pelo aumento de preços resultante dos valores exorbitantes dos combustíveis e de materiais de construção relacionados ao valor do dólar que disparou por determinação do governo federal, favorecendo os interesses dos exportadores e destruindo a economia interna.
De outra forma, a ameaça de demissão pode ser explicada pela redução do poder de compra dos imóveis pela classe média que sofre com a crise, ou pelos preços estabelecidos pelas construtoras antes da pandemia e que não mais permitem os lucros pretendidos, gerando a necessidade de diminuição de investimentos e, consequentemente de mão-de-obra.
Nessa linha, foi a diretriz do governo federal que não trouxe a vacina, não orientou a população sobre os reais riscos da pandemia, matando predominantemente o povo pobre e desempregando os mais humildes, retirando muitos postos de trabalho na economia local que, de fato, prejudicou o setor.

Portanto, cabe aos trabalhadores da construção civil a luta pela ampliação dos empregos através de investimentos públicos de infraestrutura que farão com que a competição pelos seus conhecimentos e habilidades sejam valorizados e remunerados de maneira mais digna.

Quem vive em Ubatuba deve lutar por transformar a cidade, que é de todos, em um local preservado e habitável para seus moradores e não apenas para os veranistas que não usam as escolas, as ruas dos bairros, os postos de saúde e nem mesmo os supermercados daqui.

O trabalhador que fica aqui por todo o ano e vê seu dinheiro sendo jogado verdadeiramente no lixo, quando a prefeitura gasta milhões para coletar o lixo dos turistas e veranistas que desaparecem depois do verão, precisa lutar por uma cidade melhor e não apenas por uma vaga de trabalho, muitas vezes precarizado exatamente com base nessa ameaça do discurso do desemprego, da dependência do turismo de temporada.

A construção de prédios, que temporariamente geram os empregos, somente traz lucros a alguns poucos empreendedores, que vão tornando a cidade cada vez mais caótica pela concentração populacional, pelo caos do trânsito e pela poluição do solo e das águas resultantes do lixo e do esgoto que inundam as nossas praias.

Sendo assim, cabe aos trabalhadores da construção civil defenderem aquilo que inúmeras associações, coletivos e entidades estão fazendo nesse momento. Ou seja, precisam entender o discurso dos cientistas, ativistas, ambientalistas e também dizer não ao avanço da verticalização destrutiva da cidade exigindo o seu direito de participar como cidadão da elaboração do plano diretor que promova a verdadeira geração de emprego e renda, de forma permanente e estável.

É preciso trocar o turismo de massa pelo turismo sustentável, lutar pela instalação de novos atrativos culturais para atividades que tragam visitantes durante o ano todo e não apenas na temporada, substituindo os muitos turistas por melhores turistas, na perspectiva do respeito a esse lugar e a essa natureza tão potentes e ao mesmo tempo tão frágeis e ameaçados.

Desse modo, o trabalhador de Ubatuba deve reivindicar a criação de escolas técnicas para qualificar os jovens, trazendo mais oportunidades para as gerações futuras, acabando com a precariedade do emprego de temporada, para deixar de ser refém do discurso amedrontador do desemprego, não permitindo que o medo impeça a compreensão dos fatos.
Em outras palavras, não podemos acreditar que o desenvolvimento de Ubatuba pode conviver com a destruição de nosso maior patrimônio que é essa magnífica natureza que precisa ser preservada e protegida, garantindo verdadeiramente a nossa sobrevivência. Sendo assim, voltemos nossa atenção aos povos originais, às comunidades tradicionais, aos nossos ancestrais para compreender que os forasteiros que um dia roubaram as nossas terras, hoje são também aqueles que roubam a nossa esperança e nos impedem de olhar para esse território como bem comum e não como lucro para apenas alguns, retirando dos trabalhadores o legítimo direito de usufruir desse lugar.

Por esses motivos, reais e verdadeiros, sejamos unidos na luta pela retomada da elaboração de um plano diretor democrático e participativo, voltado para o bem comum e para aqueles que virão depois de nós e que merecem viver a essência desse lugar, ao invés de encontrar uma paisagem desfigurada pela ambição daqueles que pouco se comovem com a destruição.

** As opiniões de nossos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do LN21.

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