Coluna
Territorialidades: diálogo, reflexão e ação

O calendário anual que revisitamos todos os anos, nos traz a repetição de celebrações, comemorações, memórias e rituais que, na maioria das vezes, proporciona reflexões superficiais ou carentes de sentidos e significados mais verdadeiros e profundos.

Em meio à pandemia mais dramática da história de nosso país, essa semana que se encerra com a celebração da Páscoa, representa tipicamente essa alienação da realidade, da negação da verdade e do enfrentamento da opressão que o momento atual nos impõe.

Com quase 4 mil mortos por dia, sendo o Brasil o maior responsável pela mortalidade pela Covid-19 em todo o mundo; no dia 31 de março, voltamos a flertar com o obscurantismo da ditadura militar de 64. Episódio que torturou, matou e fez desaparecer inúmeros brasileiros, tal qual acontece agora com essa dramática epidemia.

Depois dessa celebração da barbárie, da banalização desse fato histórico que, com contornos semelhantes, envergonha muitas nações, mas que no Brasil orgulha todos aqueles que se alinham com o totalitarismo e a opressão, vemos as mensagens cristãs, recheadas por ovos de chocolate e coelhinhos simpáticos, que nesses anos chegam vestidos de máscaras, nos lembrando que devemos ficar quietos em nossas tocas.

Como há muito tempo acontece, descolados do significado do renascimento e da continuidade da vida, os ovos de Páscoa são mais uma peça de consumo e desejo, que mercantilizados perderam o sentido que, em algum momento, possam ter representado como símbolos de esperança de uma nova vida, a partir da ressurreição de Cristo.

Também ele, o Cristo Salvador, que para aqueles que o professam ou como figura histórica, deveria ser lembrado como alguém que lutou contra a opressão, a injustiça e a paz. Portanto, nessa Páscoa em especial, Jesus deveria estar sendo lembrado como um símbolo de luta contra o massacre que a população brasileira vive, sem vacina, sem UTIs, sem ajuda financeira.

Essa segunda celebração de Páscoa, em tempos de pandemia e isolamento, não deverá ser um domingo de alegria e de encontros familiares, com a mesa recheada de comes e bebes para os desamparados que passam fome, medo ou tristeza pelos entes queridos que se foram. E também não deverá ser para todo cidadão consciente, solidário e fiel aos conceitos cristãos ou aos conhecimentos científicos, que devem não apenas respeitar o isolamento social, mas também estarão com o coração dilacerado pelo descalabro que vivemos.

Adocicar o dia de hoje com os chocolates pode apenas amenizar a angústia do momento atual, mas deve também nos lembrar que esse país pode voltar a ser próspero e digno para um maior número de pessoas, ao invés de continuar cavando o poço profundo da desigualdade e da opressão.

Portanto, a reflexão dessa triste Páscoa para todo cidadão consciente, deve ser a busca do resgate de nossa humanidade perdida, quando apenas contabilizamos o número de mortes, esquecendo que na verdade foram vidas de filhos, mães, pais, avós, amigos, vizinhos que foram ceifadas pela gestão incompetente daqueles que banalizam a dor e o sofrimento do outro.

Que as reflexões dessa última semana possam reparar a nossa consciência humanitária. Que a Páscoa seja, de fato um renascer dos afetos, da solidariedade, do amor ao próximo. Que o Cristo, na perspectiva religiosa ou histórica, seja exemplo de justiça, amparo, respeito, doação e paz.

Que novos sentidos e significados renasçam em nossos corações e em nossa consciência crítica, nos transformando em seres verdadeiramente humanos, capazes de transformar o mundo, abraçar a diversidade de culturas, pensamentos e opiniões; construindo conhecimento, soluções e alternativas para um país que precisa ressuscitar, depois desse pesadelo que está nos destruindo.

Que o chocolate amargo dessa Páscoa triste, traga de volta a esperança!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do LC28

Mônica de Toledo e Silva Spegiorin é geógrafa, professora, consultora em educação, especialista em mediação da aprendizagem nas Ciências Humanas e membro do Comitê de Bacias Hidrogáficas do Litoral Norte.

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