Coluna
Territorialidades: diálogo, reflexão e ação

A pandemia nesse momento em todo o Brasil e em Ubatuba é sem dúvida um grande desafio sanitário a ser enfrentado. Porém, e infelizmente, a discussão econômica e política está se sobrepondo ao dramático contexto humanitário devido à falta de compreensão por parte do poder público e da sociedade sobre o que de fato esse momento exige.

Enquanto o Brasil retorna ao mapa da fome, a taxa de desemprego bate recordes, a falta de perspectiva de aceleração do processo de vacinação e, ainda, a dor daqueles que perderam pais, filhos, avós, amigos, colegas de trabalho para um vírus que não dá trégua em nenhuma região do país, representam o cenário atual, sem previsão de melhora.
O vai e vem da abertura do comércio nas cidades, a carência de responsabilidade individual com o uso de máscaras e com o distanciamento social, sistematicamente desrespeitado, demonstram a falta de compreensão sobre o caos que estamos mergulhados.

A reivindicação pelo direito ao trabalho e pela abertura do comércio que aconteceu nas ruas da cidade de Ubatuba na última semana é, certamente, realizada em meio ao desespero. Mas, lamentavelmente foi gerada com base em um discurso de salvação da economia que, construído por narrativas enganosas e negacionistas sobre a gravidade da pandemia, está longe de ser a solução para o sofrimento da população que perde empregos, passa fome, não tem assistência médica e não recebe amparo para poder ficar em casa e combater o vírus que se alastra incessantemente.

Responsabilizar as prefeituras municipais pela decisão de cumprir ou não as orientações sobre o funcionamento da economia, ou insuflar a população a contestar regras estabelecidas pelo poder público, faz parte, a meu ver, de um posicionamento perigoso e que pode levar ao esgarçamento do tecido social, já tão fragilizado desde a disputa eleitoral de 2018, marcado pela ausência de um debate programático robusto que mostrasse um plano de governo, uma proposta de desenvolvimento e os interesses daqueles que desejavam assumir a gestão do país.

A população, confundida por informações e discursos que apontam para a destruição da economia, caso se aplique o lockdown, não compreende que o desastre atual existe pela falta de vacinas que não foram compradas; de auxílio aos mais carentes para que pudessem se manter em casa no início da pandemia e, acima de tudo, que as informações e ações dos três níveis de governo, federal, estadual e municipal, acontecessem em sintonia e colaboração.

Falta para a população o entendimento que, quanto menos distanciamento, uso de máscara e higienização, mais a crise econômica se agrava, mais pessoas sofrem por falta de atendimento médico e mais carências vão dominando o país, enquanto o número de mortos não para de crescer.

Ao invés de empresários pedindo a reabertura, de trabalhadores dizendo que querem voltar ao trabalho, a população deveria estar mobilizada exigindo vacinas, lutando para novas leis que taxassem bens milionários isentos de impostos, que poderiam gerar recursos para amparar os mais pobres, além de novas regras para gastos públicos inaceitáveis e supérfluos como as verbas para os políticos aproveitarem suas férias ou o fura-fila da vacinação.

Também ações de adversários políticos com objetivo de desestabilizar e cobrar de governos municipais recém empossados, por soluções que todos reconhecem como inviáveis no atual contexto, de nada contribuem para o bem comum e para a melhoria da condição de vida da maioria da população cada vez mais empobrecida, apreensiva e transtornada.

Em meio a uma situação que se mostra sem solução, cada um de nós deve fazer a sua parte, de acordo com suas possibilidades reais e não fomentar uma desobediência civil que só pode agravar os problemas já existentes. Em outras palavras, para todos nós cabe a responsabilidade do uso de máscara em todo o ambiente de contato com outras pessoas. Manter locais arejados e com distanciamento seguro. Evitar sair de casa para qualquer atividade que não seja absolutamente essencial e necessária. E, acima de tudo, auxiliar as pessoas mais fragilizadas.

Sendo assim, tome atitudes concretas. Doe alimentos, telefone para quem você ama e manifeste seu afeto também para alimentar o coração e reduzir a angústia do isolamento. Se conscientize definitivamente da gravidade da situação e assuma a sua segurança e daqueles que pode proteger.

Considere que é necessário entender que a alternativa que se mostra para a humanidade é a solidariedade e a empatia. Talvez seja a hora de refletirmos sobre essa transformação que o mundo necessita fazer. Ou seja, partilhar, colaborar, dividir e combater a desigualdade que faz com que, nesse momento, alguns estejam sofrendo por muitas indigências, enquanto outros, simplesmente pensam nos seus lucros, nos seus interesses políticos manipulando uma população considerada subalterna e que pode correr riscos sempre. Seja no transporte público, nas filas, no trabalho ou passando fome e agonizando sem leitos e oxigênio nos hospitais lotados em todo o país.

Enfim, é hora de compreendermos que ser contrário ao lockdown significa ser rígido e comprometido com o distanciamento social, com o uso de máscaras e a higienização, com a informação e com a defesa dessas ações. Pois, negar essas regras e ter comportamento incompatível com aquilo que nos mostra a ciência e a medicina, não é uma opção ou o mero direito a manifestar sua opinião, trata-se de falta de humanidade, de responsabilidade cidadã e compromisso com a vida de todos. Considerar que o lockdown não é possível significa, portanto, assumir que o fim desse dramático momento depende do compromisso e da responsabilidade de cada um nós!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do LC28

Mônica de Toledo e Silva Spegiorin é geógrafa, professora, consultora em educação, especialista em mediação da aprendizagem nas Ciências Humanas, representante e vice-presidente pela sociedade civil do Comitê de Bacias Hidrográficas do Litoral Norte.

Compartilhe: