Coluna
Territorialidades: diálogo, reflexão e ação

O dia das mães é mais uma data estabelecida com interesses de mercado e objetivos de consumo. Mesmo com essa consciência, penso que as mães sempre esperam algo especial nesse dia. Uma lembrança, um telefonema, um reconhecimento, uma palavra, um gesto especial, uma reflexão.

A experiência da maternidade traz afetos, alegrias, responsabilidades, compromissos, cobranças, frustrações, realizações, dores e amores. Envolvida por diversas nuances culturais, as mães são sempre uma referência para todos nós, seja pela presença, ausência, recordações ou exemplos.

Entretanto, em tempos de reflexão sobre gêneros, papéis, padrões, obrigações; a figura da mãe precisa ser analisada, ressignificada, qualificada, revista e valorizada dentro do contexto da contemporaneidade. É necessário compreender seu papel na família e na sociedade, abarcando seu sentido e significado, não como função, mas como uma experiência amorosa, mas também desafiadora, conflituosa e penosa, dependendo da realidade de cada um.

Ser mãe é uma trajetória que pode, ou não, estar relacionada com a geração da vida, com os traços da genética, com a gestação de um novo ser humano. Na realidade, ser mãe é uma competência que se desenvolve pelo afeto, pela convivência, pelo cuidado e pela doação, que hoje chega a ser reconhecida também pela dedicação aos animais.

Não é por acaso que as chamadas mães de leite do período escravagista, foram sendo substituídas pelas babás da classe média, pelas avós, tias, vizinhas que muitas vezes, exercem mais carinhosamente o papel de mães. Também, mais recentemente, muitas mães, fora dos padrões convencionais, estão presentes nos casais homoafetivos, ou por famílias das mais diversas configurações.

A constituição do papel de mãe, portanto, não é mais uma atribuição exclusiva das mulheres. Trata-se de uma experiência que pode ser vivida no campo profissional, como acontece com professores, enfermeiras, merendeiras e cuidadores. Pode estar presente no compromisso do exercício da cidadania quando pessoas se dedicam a abrigos e obras assistenciais. Ou em situações mais dramáticas, quando vemos mulheres, ainda muito jovens, darem à luz como resultado de abusos que sofrem, se tornando mães antes mesmo de serem mulheres adultas.

Nesse triste lado da opressão vivido pelas mulheres, não são poucas as que experimentam a maternidade como resultado de estupro, ou cuidam sozinhas de seus filhos, depois de desamparadas por homens que, sem culpa, abandonam lares e crianças. Além de transferirem responsabilidade, custos e carências para mães sozinhas.

Aparentemente, essa reflexão pode parecer dura, triste e inadequada para um dia que deveria ser apenas de celebração. Entretanto, uma sociedade que somente romantiza o papel da mãe, jamais poderá dar valor verdadeiro a esse amor incondicional, mas também exigente e corajoso.

Sendo assim, entendo como mãe que sou, que adoro e me orgulho de ser, que não precisamos ser vistas como heroínas, como altruístas, como melhores que qualquer outro ser. Precisamos apenas de solidariedade, de amorosidade, de compreensão de nossas angústias e preocupações. Precisamos de parceria e colaboração nessa tarefa.

Não é necessário dizer que “ser mãe é padecer num paraíso”, mas também não é preciso imaginar que ser mãe significa ser feliz inexoravelmente. Ou fazer da maternidade um grande sacrifício a ser glorificado. Temos simplesmente que reconhecer que, quem assume o papel de mãe, dos seus filhos ou de filhos de outros. Seja pela maternidade genética ou pela adoção. Seja por decisão, imposição ou simplesmente pelo acaso, não pode perder com isso a sua identidade como pessoa, cidadã, profissional ou amante e desejante de vida e de realizações.

Respeitar, reconhecer e valorizar quem se dedica amorosamente para o outro significa dar, principalmente às mulheres, uma dimensão humana e não sagrada. Dimensão que retira, deste modo, o peso da perfeição, da total abnegação de sua própria vida, da obrigação de jamais colocar limites ou manifestar insatisfação e cansaço.

Por fim, nesse dia das mães em tempos de pandemia, façamos uma justa celebração pela vida de todas e todos que se doam como mães. Mas também façamos desse domingo, um dia de recolhimento por tantas mortes. Por mães e filhos, que choram pela ausência dos seus entes queridos, em um dos momentos mais tristes da história de nosso país.

Mônica de Toledo e Silva Spegiorin é geógrafa, professora, consultora em educação, especialista em mediação da aprendizagem nas Ciências Humanas e membro do Comitê de Bacias Hidrográficas do Litoral Norte.

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