Coluna
Territorialidades: diálogo, reflexão e ação

Novamente uma data comemorativa nos provoca uma reflexão para além dos interesses consumistas do mercado. O dia dos pais é, sem sombra de dúvidas, um dia de festa, principalmente em uma sociedade patriarcal, ainda marcada pela assimetria entre o poder do pai no contexto familiar, apesar do cada vez mais ser reconhecido o papel da mulher na sociedade.

Dados mostram que 11,6 milhões de mulheres conduzem sozinhas a sobrevivência e a educação de seus filhos, que muitas vezes não recebem nem mesmo o nome de seus progenitores que, abandonam lares, relações e obrigações, sem quase nenhuma reprovação da sociedade.

Se no dia das mães afirmei nessa coluna que: “em tempos de reflexão sobre gêneros, papéis, padrões, obrigações; a figura da mãe precisa ser analisada, ressignificada, qualificada, revista e valorizada dentro do contexto da contemporaneidade. É necessário compreender seu papel na família e na sociedade, abarcando seu sentido e significado, não como função, mas como uma experiência amorosa, mas também desafiadora, conflituosa e penosa, dependendo da realidade de cada um”, o mesmo vale para os pais.

Por esse motivo, a triste e absurda declaração do vice-presidente de Jair Bolsonaro, general Hamilton Mourão afirmando que famílias pobres compostas apenas pela “mãe e a avó” são “fábricas de desajustados” que tendem a “ingressar” no narcotráfico (sic), foi peremptoriamente contestada e destruída pela vitória de Rebeca Andrade, nossa medalhista de ouro e prata nas Olimpíadas, filha de uma mãe que conduziu 7 filhos com a ausência do pai.
Mesmo assim, não faltaram as brincadeiras maliciosas, dizendo que com 7 filhos, esse pai na verdade esteve bastante presente. Realidade que, de fato, demonstra a fragilidade da condição da mulher em nossa sociedade machista, que super valoriza a virilidade masculina, como um grande bem dado às mulheres.

Mas deixemos o necessário reconhecimento da importância inegável das mães para falarmos mais profundamente sobre o papel, a importância e a responsabilidade de ser pai no atual contexto do mundo, cheio de violências, opressões e dificuldades para homens e mulheres.

Trata-se de um momento de reflexão profunda sobre o desejo e a necessidade de homens se transformarem em pessoas de relevância na formação dos filhos e filhas, para muito além da função de provedor, chefe da casa ou da pessoa que manda e comanda a família sob marcas do autoritarismo ainda tão presente.

Certamente essa não é tarefa fácil, pois perder privilégios, condição de mando e de conforto, exige dos homens vigilância no comportamento padrão, muita coragem e muita determinação. E esse desafio tem sido vencido por muitos pais que conheço, convivo e admiro. E é pensando neles que alimento minha esperança nas grandes transformações que vamos vivendo em tempos de tantas mudanças de costumes na vida em sociedade.

O que se pode ver hoje são pais amorosos, participativos da vida escolar e doméstica, cuidando, alimentando, banhando e educando bebês, crianças, adolescentes e jovens, não mais com suas certezas e vantagens, mas com seus afetos, dúvidas, medos, reflexões, emoções e com a ressignificação das relações familiares.

Cada vez mais vemos pais que choram, que abandonam a vida de exclusiva dedicação ao trabalho e à carreira, ao lazer e ao happy hour, para compartilhar a vida dos filhos, o cotidiano da família e as dificuldades de educar seres que recebem com a paternidade, mas que chegam sem manual de instrução, sem plano de voo e que colocam esses homens em uma aventura amorosa que faz todos crescerem e se desenvolverem como pessoas melhores.

São pais que não querem mais seus herdeiros como princesas ou garanhões e passam a aceitar as escolhas de gênero, de carreira, de ideologia e de vida, trocando a posição de provedor pela condição de facilitador, de participante das decisões livres que proporcionam às suas filhas e filhos, celebrando muito mais a trajetória e cobrando muito menos os resultados e a performance de sucesso nos estudos, carreira, casamentos ou qualquer outra exigência da vida.
Ao contrário das relações de medo e opressão impostas aos filhos, chamadas equivocadamente de respeito, homens atualmente mergulham em uma experiência de amor e aprendizado que antes era privilégio apenas de mulheres e mães, como traços permitidos apenas como exclusivos da feminilidade. Mas que agora os homens também podem, educar e construir filhos melhores, mais generosos e mais capazes de atuar no mundo, por meio de um modelo novo de paternidade e masculinidade.
Sendo assim, o dia dos pais merece celebração similar às estátuas que caem e pegam fogo, enterrando um passado de lembranças tristes e marcas de humilhação e submissão para muitos de nós. Nesse domingo, com certeza há menos pais autoritariamente sentados na cabeceira da mesa do almoço. Mas há homens encantadores que estão em lares transformados em espaços de partilha e afeto, convívio e igualdade como, de fato, deve ser todo convívio humano e cidadão.

Nesse domingo, dou parabéns a esses pais corajosos que enfrentam a mudança para a construção de um mundo melhor!! Exatamente como fez meu pai, com seu amor, sensibilidade, ética, dignidade e exemplo!!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do LC28

Mônica de Toledo e Silva Spegiorin é geógrafa, professora, consultora em educação, especialista em mediação da aprendizagem nas Ciências Humanas e membro do Comitê de Bacias Hidrogáficas do Litoral Norte.

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